Na Garagem: Lauda garante título inédito com pódio na Itália e quebra jejum da Ferrari

Na Garagem: Lauda garante título inédito com pódio na Itália e quebra jejum da Ferrari

Murillo Torres
Murillo Torres
Piracicaba - SP
Publicado em 07/09/2025 às 04h

Em um 7 de setembro como este, Niki Lauda e a Ferrari fizeram história na Fórmula 1. Há 50 anos, a dupla se sagrou campeã correndo na casa dos italianos em Monza, para euforia contagiante dos tifosi. Mais do que isso, o austríaco começava a trilhar sua carreira rumo ao tricampeonato da categoria e ver seu nome ao lado de grandes feras do automobilismo. A equipe italiana faturava o campeonato de Construtores após 11 temporadas de seca. O GRANDE PRÊMIO recorda o que está Na Garagem e relembra como foi aquela corrida e a conquista, 50 anos depois.

O GP da Itália era o 13º e penúltimo daquela temporada, e Lauda mostrou a que veio naquele ano. Até aquela prova, era extremamente regular e havia conquistado quatro vitórias – Mônaco, Bélgica e Suécia, na sequência, além do triunfo na França. Também havia subido ao pódio outras duas vezes e tivera apenas um abandono, na Espanha. Por isso, Niki aterrissava em Monza com uma mão e meia na taça e 51,5 pontos no campeonato.

Para que não saísse campeão, seu então rival na temporada, Carlos Reutemann, precisava vencer e o #12 não completar a prova, algo que estava bem difícil de acontecer devido à confiabilidade da Ferrari. Outra informação, no mínimo curiosa, é que aquela corrida poderia ser a última do circuito, que vivia rodeado de críticas dos pilotos do grid por falta de segurança. Mesmo com a instalação de chicanes, ficou definido no briefing dos pilotos aquele dia que não haveria ultrapassagem por elas na primeira volta para evitar um engavetamento generalizado.

Entre os brasileiros, Emerson Fittipaldi não conseguiu defender a coroa de bicampeão naquele ano com a McLaren, embora vinha fazendo um campeonato competitivo com duas vitórias – Argentina e Inglaterra -, e chegava à penúltima etapa brigando pelo vice, com 33 pontos, um a menos que o argentino. José Carlos Pace fazia um grande campeonato e conquistou um triunfo histórico e emocionante em Interlagos, seu único na carreira da F1.

O Brabham #8 de José Carlos Pace que vencera em Interlagos (Foto: Reprodução)

Domínio da Ferrari e pole de Lauda na classificação em Monza. Reutemann vai mal

A Ferrari confirmou sua força naquele fim de semana com uma grande performance de Lauda, que cravou a oitava pole na temporada com o tempo de 1min32s24, seguido pelo companheiro de equipe, o suíço Clay Regazzoni, que marcou 1min32s75. A segunda fila tinha Fittipaldi, em evolução com o M23, e Jody Scheckter na quarta posição, com a Tyrrell. Jochen Mass e Tony Brise completavam os seis primeiros.

Reutemann deu sinais de que não seria páreo para Lauda já na classificação, cravando apenas o sétimo lugar, mais de 1s atrás do austríaco. Um ainda verde James Hunt sairia em oitavo, Vittorio Brambilla na nona colocação e Pace, em décimo.

Outros nomes importantes do grid e da história da F1 vieram na sequência: Ronnie Petterson largava em 11ª, Mario Andretti saía em 15º com a Parnelli, Jacques Laffite era o 18º, e Leila Lombardi na 24ª colocação.

Aquele fim de semana poderia marcar a volta de Wilson Fittipaldi ao grid da F1, mas o brasileiro não se recuperou de uma lesão no pulso sofrida em Zeltweg, na Áustria, e terminou substituído pelo italiano Arturo Merzario na Copersucar.

Carlos Reutemann largou em 7º no GP da Itália em 1975 (Foto: Reprodução)

Regazzoni e Lauda deixam terreno pronto para a Ferrari conquistar título em Monza

Monza amanheceu chuvosa naquele dia e sob risco de a corrida não acontecer, mas qualquer expectativa de adiamento ficou para trás cerca de uma hora antes da largada. A torcida fanática da Ferrari fez a sua parte e lotou o Autódromo Nacional, unida aos fãs austríacos que vieram para a Itália torcer pelo seu representante. Cerca de 200 mil espectadores foram à pista, e a pressão dos fãs pelo título era enorme. Niki andava de um lado para o outro no motorhome da Fiat.

Ainda com o asfalto molhado, a largada veio de forma confusa. As Ferrari começaram bem, mas, ainda na primeira curva, Regazzoni assumiu a liderança, ultrapassando Lauda. Logo na sequência, foi a vez de Mass fazer a ultrapassagem sobre os pilotos do time da casa, mas nem deu tempo de comemorar muito, com o britânico levando a pior no duelo com o #12. Na segunda volta, uma confusão generalizada ficou na memória de quem acompanhava aquela corrida.

Scheckter passou reto na primeira chicane e ficou em uma posição de extremo perigo. Jochen o seguia de perto e teve de desviar para não acertar o sul-africano, batendo no trilho e danificando a suspensão. Com o piloto da Tyrrell bloqueando a pista, os pilotos que vinham no pelotão de trás tiveram de recorrer à área de escape. Nisso, Andretti atingiu Brise e ambos rodaram.

O cenário não podia ficar melhor para a Ferrari naquele momento e, assim, mantinham a ponta com Clay em primeiro e Niki no segundo posto, com 4s de vantagem para Reutemann, Fittipaldi e Hunt, que fechavam a lista dos cinco primeiros. Na sexta volta, o acelerador de Pace teve problemas e o brasileiro da Brabham foi obrigado a abandonar a corrida.

A largada do GP da Itália em 1975, com a Ferrari na primeira fila (Foto: Reprodução)

Emerson e Reutemann travavam um duelo feroz pelo terceiro lugar. O brasileiro tentou a manobra na 12ª volta, sem sucesso, mas dois giros depois, enfim, conseguiu a ultrapassagem para cima do argentino e partiria para tentar encostar na Ferrari, 7s à frente. Quem também garantia o entretenimento da corrida era Hunt e Tom Pryce, britânicos que batalhavam pela quinta colocação. James rodou na volta 27 e Pryce o ultrapassou.

Mais à frente, Lauda começa a sofrer com problemas no amortecedor, o que permite a aproximação de Emerson. Reutemann, enfim, enterra qualquer chance de levar a disputa do título para a última corrida, que seria nos Estados Unidos, ao lidar com um defeito nos freios.

A dez voltas do fim da corrida, Regazzoni mantinha 10s de vantagem na liderança, enquanto Lauda lutava contra sua Ferrari e com Fittipaldi no encalço, porém, com o título cada vez mais encaminhado, era só completar a corrida. No 46º giro, enfim, o brasileiro passou Niki, que não ofereceu resistência. Nas arquibancadas, a euforia dos tifosi começava a tomar conta do circuito, que se preparava para comemorar os dois títulos.

Sob aplausos, Regazzoni conquistou a vitória em Monza – a segunda nesta pista, assegurando sua permanência na equipe para o ano seguinte depois de uma temporada claudicante. O suíço voltaria a triunfar outras duas vezes na carreira, antes de deixar a F1, em 1980.

Clay Regazzoni venceu pela segunda vez na carreira em Monza (Foto: Reprodução)

Emerson chegou num excelente segundo lugar, enquanto Lauda atingiu o topo do Olimpo dos grandes da categoria ao, enfim, conquistar seu primeiro título na carreira, para a festa dos italianos, que invadiram a pista. Reutemann, Hunt e Pryce fecharam a zona de pontuação da prova italiana.

Pela TV, o Comendador Enzo Ferrari sorria e comemorava muito, afinal, além do troféu no Mundial de Pilotos, sua marca quebrava um jejum de onze anos sem conquistar o campeonato de Construtores – o último havia sido em 1964. Em Monza, a equipe italiana conquistava sua vitória 57 na história da F1.

Paixão pela aviação, história contada no cinema e relação com Hamilton/Mercedes

Com a coroa assegurada por antecipação, ainda houve tempo para mais uma vitória de Lauda, que fechou aquele ano mágico com o triunfo no lendário Watkins Glen. Fittipaldi garantiu o vice-campeonato com o segundo lugar conquistado na prova norte-americana, superando Reutemann por oito pontos (45 x 37 para o argentino). Após a temporada, um trágico acidente de helicóptero na Inglaterra, no mês de novembro, matou a lenda Graham Hill e Brise, além de outros quatro tripulantes a bordo da aeronave.

Os anos seguintes do casamento Lauda e Ferrari resultaram em um vice-campeonato em 1976 para Hunt – se você, caro leitor, ainda não assistiu ao filme “Rush – No Limite da Emoção”, não sabe o que está perdendo! – e um bicampeonato conquistado em 1977. O austríaco encerrou a passagem pela equipe após quatro temporada com 23 poles e 15 vitórias e é, até hoje, o segundo maior vencedor pela escuderia, atrás apenas de Michael Schumacher (72 triunfos). Em 1976, claro, viveu o acidente que marcou o restante da vida, em Nürburgring, quando teve a vida ameaçada e ficou com marcas para sempre.

Niki Lauda celebra título pela Ferrari em 1975 (Foto: Ferrari)

Lauda chegou a sair da F1 em 1979 e ficou três anos longe do paddock até ser convencido pela McLaren a voltar para a categoria em 1982. Na temporada 1984, Niki garantiu seu último título na carreira e ficou até a aposentadoria em definitivo, ao final do campeonato de 1985, aos 36 anos.

Lauda nunca conseguiu ficar longe da Fórmula 1, embora tenha feito seu nome no ramo da aviação ao se tornar dono de três companhias aéreas. Em 1993, atuou como consultor do time italiano, antes de se tornar o diretor-principal da Jaguar no biênio 2001-02.

Na temporada 2012, voltou ao papel de consultor no ambicioso projeto da Mercedes e se aliou a Toto Wolff e Lewis Hamilton, tornando-se o principal mentor do britânico. A parceria rendeu seis títulos de construtores consecutivos, além de cinco troféus para Hamilton e um para Nico Rosberg. Porém, um problema renal que o perseguiu desde o acidente de 1976 foi implacável com o tricampeão, que faleceu aos 70 anos no dia 20 de maio de 2019.

Lauda foi consultor da Mercedes e mentor de Hamilton na equipe alemã (Foto: Mercedes)

Dias depois, um carro e uma vitória entraram para a história da F1. A Mercedes correu com o halo em vermelho no GP de Mônaco para homenagear o icônico boné de Lauda que o acompanhava pelo paddock. Hamilton, também correndo com um capacete lembrando o seu mestre, precisou dar uma aula de defesa para segurar Max Verstappen em Monte Carlo e garantir a vitória de número 77 na carreira.

Um ano após sua morte, Hamilton declarou seu amor por Lauda em vídeo publicado nas redes sociais da Mercedes. “É alguém que sinto muita falta. Lembro que estava em casa quando me ligou e tentava me convencer a ir para a equipe. Foi incrível receber uma ligação de um campeão do mundo como ele. Sou grato pela chance que tive e vou te amar para sempre, Niki. Sei que está conosco com seu espírito em cada corrida”, finalizou.

Neste domingo (7), a Ferrari não deixou de lembrar da conquista de Lauda e, para celebrar o feito, preparou camisetas e bonés azuis, que Charles Leclerc e Hamilton vão utilizar durante o GP da Itália. A atual dupla posou para fotos com o uniforme especial e ao lado do icônico carro #12 daquela inesquecível temporada.

Camisetas azuis em homenagem aos 50 anos do título de Niki Lauda (Foto: Ferrari)

F1 retorna neste fim de semana, de 5 a 7 de setembro, em Monza, palco do GP da Itália, 16ª etapa da temporada 2025. O GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades AO VIVO E EM TEMPO REAL, além de classificação e corrida em SEGUNDA TELA no YouTube, em parceria com a Voz do Esporte. O Briefing chega para analisar após o fim de cada dia de atividades nas redes sociais e na GPTV.

Além da cobertura tradicional, o GRANDE PRÊMIO estará IN LOCO em Monza para acompanhar todas as emoções da etapa com o repórter Leonid Kliuev.

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